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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

ÉPICO

RobertoMenezes



Não me interessa mais cantar o perfume da mulher
Com as pétalas macias das flores das palavras
Nada de cantos de seduções e encantos vãos
Na minha garganta crescem germes e larvas


Um navio chamado Haiti
(que maldade!)
Vem por mares sempre antes navegados
Parece o zepelim da Geni
E nos pegará descuidados
E antes de terminar a frase”eu te amo”
Seremos todos levados
Para a prisão de Guantánamo

Alguns partirão antes que aconteça
Em busca das florestas por não ter onde ir
Com um só obsessão na cabeça
Descobrir como se faz Irene rir

Irene é mulher diferente
Traz a morte como alvo
Guardada num comprido pente
Um pente que cospe fogo
Como os mísseis do navio

O Haiti seja aqui
Disse o poeta inocente
Que poetou sem profecia
O Haiti será aqui
Pra marcar nossa agonia
De gente apática,fraca,indolente
Que irá visitar o navio
Deslumbrada e demente

Querendo aprender inglês
Para se entregar de vez
Se temos shopping,internet, celular sofisticado
Multiplex, TV plasma,Tv Globo,
Por que não tudo isso gozar ?
Mas esse gozo não é orgasmo
É pranto, é fome, é espasmo
É ocupação de um país,invasão
Mas nós temos Zeca Pagodinho,
Seu Jorge e Zé Bonitinho
Big Brother ,mulata e carnaval
Gente boa sempre a sorrir
Bem comportada, cordial
Que nem de longe quer ver
E muito menos aprender
Como se faz Irene rir

Tudo começa de novo
A serpente vem no ovo
De um grande peixe no mar
E antes dos nossos românticos
Dizerem pra sua amada “eu te amo”
Seremos todos levados
Para a prisão de Guantánamo

Assim se cumpre o destino
A sina covarde e inglória
Do Brasil e sua falsa história
Buscando viver pela mídia
Com a vida a se extinguir
E que nunca vai aprender
A libertação,o prazer
De fazer Irene rir

Desculpem as mocinhas românticas, meu desabafo irritado, esse épico quadrado, depois de tantos dias dedicado a reviver num roteiro de cinema os crimes da ditadura CIVIL-MILITAR. E ainda receber notícias que nos roubam a água e o minério da Amazônia ( qual a novidade,cara pálida,me pergunto), que os marines estão chegando pra instalar bases no Nordeste.
O passado que revivo fazendo o roteiro revive no presente das notícias. Coágulo que não se dissolve nunca e se repete de geração em geração.”Soledad no Recife”, o filme, vem aí. Tirei o foco exclusivo na beleza da guerrilheira paraguaia ,como está na bela obra de Urariano Mota, e fiz crescer os heróis anônimos para compor a epopéia cinematográfica trágica de uma das faces da luta armada no Brasil.

Um filme para as novas gerações entenderem que o buraco é mesmo mais embaixo...embaixo da terra. Este poema e o filme são dedicados a Soledad Barrett,, Pauline Reichstul, Eudaldo Gomes, Jarbas Pereira, José Manoel, e Evaldo Ferreira, torturados e mortos na farsa da Chácara São Bento em janeiro de 1973, e que é o tema do meu filme. E aos companheiros e companheiras que querem continuar a luta. Sim ,antes que esqueça : o canalha delator Cabo Anselmo continua vivo , conspirando com a direita, e pedindo indenização pelos crimes que cometeu,inclusive contra a mulher grávida de um filho dele (Soledad). Tanta bala perdida pegando corpos
desatentos. E nenhuma atinge o anjo exterminador.





UM BEIJO AMARGO. RobertoMenezes.

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