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domingo, 20 de junho de 2010

Perversos e drogados

20/6/2010


Sigmund Freud, o pai da Psicanálise, escandalizou a sociedade vitoriana ao apresentar evidências de que as crianças, mesmo as de tenra idade, possuem desejo sexual. Como essa sexualidade ou libido é difusa, não genital, Freud chamou os bebês de "perversos polimorfos". Pois, para piorar ainda mais a fama dos nossos pimpolhos, a neuroendocrinologia moderna descobriu que os lactentes são adictos de (um eufemismo para "viciados em") uma morfina endógena, isto é, um "opióide" produzido por seu próprio corpo.

Trocando em miúdos: no leite materno existe uma substância chamada beta-caseína, que, ao entrar em contato com o intestino do bebê, transforma-se num peptídeo vasoativo denominado "beta-casomorfina", uma endorfina ou endomorfina indutora de efeitos anestésicos: analgesia e sedação.

Tão novinhos e já perversos e drogados… Oh, Deus, para desentortar essa criançada, haja padres! (Que foi? Eu disse alguma besteira?)

A função adaptativa desse circuito opióide no cérebro dos mamíferos é óbvia: fazer com que, mormente à noite, as crias se aquietem, pois seus ruídos - de dor ou alegria - são chamarizes de predadores.

Mais preocupante (ou interessante, dependendo do ponto de vista), todavia, é o que acontece depois do desmame: a função analgésica - e, em excesso, sedativa - da beta-casomorfina passa a ser desempenhada pela anandamida e pelo glicerol araquidonil, que são (pasmem!) "canabinóides" endógenos, isto é, substâncias análogas ao tetraidrocanabinol: o princípio ativo da maconha e do haxixe.

Como se vê, de acordo com a endocrinologia os circuitos opióide e canabinóide do cérebro (assim como o dopaminérgico, sobre o qual atuam a nicotina, a cafeína, o álcool e a cocaína) não são estruturas desviantes criadas por comportamentos malsãos, porém sistemas naturais e "necessários" para a sobrevivência. No caso específico do homem, também constituem bases neuronais do comportamento lúdico, recreativo, e, em circunstâncias extremas, da dependência química e do vício. O homem não quer apenas comer, mas comer "bem"; move-o mais o apetite do que a fome. Tanto que, amiúde, deixamos de tomar o café da manhã - i.e., provocamos deliberadamente a sensação de carência alimentar - com o fim de, no almoço, dar prejuízo aos proprietários de restaurantes rodízios. No que toca aos mais requintados, a culinária é uma arte (no caso da francesa, arte abstrata) em que o sabor do alimento é supervalorizado a expensas das suas qualidades nutricionais - o que explica a beleza "diáfana" (um eufemismo para "fantasmagórica") de certas princesas e a necessidade aristocrática de empoar-se e usar bengala.

Da mesma forma, visando ao mero prazer, o homem tira do contexto funcional os sistemas neurais opióide, canabinóide e dopaminérgico. Para tanto, fabrica equivalentes exógenos das endorfinas e quejandos, muito mais potentes.

Realmente, com a desculpa de entrar em comunicação com os deuses (na maioria dos casos, conversa fiada com Baco e seu séquito de mênades e sátiros), desde épocas imemoriais os homens produzem e consomem garapas fermentadas & Cia. Isso não seria problema se não fosse por uma coisa. Não se trata do vício "per se", mas do risco de que psicotrópicos indutores de paranóia virem a se tornar habituais em profissões importantes - Entre os jornalistas formadores de opinião, a nicotina e a cafeína; entre os grandes executivos capitalistas, a cocaína (que o diga o protagonista do filme "Meu nome não é Johnny").

A propósito, devido à sensibilidade histérica do mercado financeiro, corre o boato de que a crise de 2008 foi desencadeada pelo espirro de um yuppie da bolsa de valores de Londres, que pôs a perder várias carreiras da branquinha. É preciso… ic!… que a Scotland Yard investigue isso.


MANUEL SOARES BULCÃO NETO
ensaísta




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http://www.ejornais.com.br/jornal_diario_do_nordeste.html

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